Blog Post

Nascidos para Aprender

  • Por CompletaMente
  • 18 out., 2022
Texto escrito por Joana Vaz, Especialista em Saúde Pública.
Numa das visitas à minha avó ela perguntou-me se a minha filha (5 anos) gostava da escola, ao que eu respondi “claro que gosta, farta-se de brincar”. Mas a minha avó insistiu, “mas gosta assim das coisas da escola?" Aí fiquei ligeiramente confusa, o que seriam as “coisas de escola” para uma criança de 5 anos para além de fazer aprendizagens significativas através da brincadeira? Ela elaborou dizendo, “coisas de escola, sabes, como números e letras, essas coisas…”. Ok já estava a ver onde ela queria chegar. Essa separação de “conteúdos muitos importantes para a vida” e “aprendizagens em contexto e com diversão” faz-me muita comichão.

Não questiono a importância da literacia e numeracia básicas, mas quem inventou uma hierarquia de aprendizagens?Ou que as aprendizagens mais académicas são mais essenciais que as motoras, as sociais, as culturais. Quem é que inventou que sentadinhos e com um adulto a falar é que se aprendia? (Reparem falo em aprender e não ensinar, porque estão longe de ser sinónimos).

Comecemos do início. Assim que nascem, os recém-nascidos têm um apetite voraz por aprender. Começam por aprender a comunicar através do choro para ver as suas necessidades mais básicas satisfeitas e passam o primeiro ano em experiências de tentativa e erro para melhor controlarem o seu corpo e chegarem a sítios e manipularem coisas. Ao mesmo tempo vão aprendendo sobre expressões faciais, emoções, causa-efeito, sons e sabores, para dar alguns exemplos. Se pensarmos na linguagem, quando chegam aos 2-3 anos a maior parte das crianças

fala pelo menos uma língua fluentemente, sem ninguém se ter sentado com elas para que aprendessem. Como pais, não teríamos tempo nem paciência para um processo tão fastidioso, e ao que parece também não é preciso um professor dedicado para que esta aprendizagem e muitas outras, ocorram.

Um bom exemplo desta aprendizagem orgânica e não orientada são as experiências de Sugata Mitra, um cientista computacional e educador Indiano. Em 1999, ele instalou um computador com acesso à internet numa parede das favelas de Nova Deli para ver o quanto as crianças aprendiam por si mesmas sem a ajuda de um professor.

Depois observou como elas reagiam. Nenhuma delas tinha visto um computador antes, pouco iam à escola, nem sabiam inglês, a língua em que estava o motor de pesquisa da internet. Passadas horas perceberam o que podiam fazer com o computador e começaram a aprender uns com os outros. Jogaram jogos, gravaram a sua própria música e surfaram a internet como profissionais. Esta experiência foi repetida pela Índia fora em diferentes contextos e pelo mundo fora. Esta, juntamente com outras e mais desafiantes experiências (nomeadamente uma que em crianças de 12 anos aprenderam sozinhas sobre biotecnologia) levaram Sugata à conclusão que as crianças aprenderão o que elas quiserem intencionalmente aprender.

Então voltemo-nos para a generalidade das escolas. Não há dúvidas que as crianças são aprendizes naturais, então porque é que tantas têm as mais diversas dificuldades no seu percurso escolar? Porque é que tantas consideram a escola aborrecida? Estes parecem-me ser os principais motivos que se intensificam à medida que se avança no percurso escolar:

Primeiro, o modo de aprendizagem é maiorita-riamente verbal e matemático. Os alunos escrevem, calculam e debatem com os professores. Vem-me à cabeça a imagem de um grande cérebro transportado por umas pernas atrofiadas de um lado para o outro.S

Segundo, o currículo é um “corpo” de material pré-definido por alguém como sendo “conhecimento essencial para a vida de todos” para ser aprendido em blocos separados (disciplinas) e muitas vezes sem contexto. Como se na vida a ciência não se interligasse com a educação física, por exemplo. Terceiro, há testes. Demasiados testes sem benefícios diretos para os alunos (porque estes não garantem aprendizagem) e perde-se muito tempo a preparar para eles. Quarto, a aprendizagem tem que ser feita ao mesmo ritmo por todos os alunos e a real  capacidade de diferenciação na apren-dizagem escolar é muito limitada.

O dia na maioria das escolas está organizado em blocos de tempo, por grupos de idade, por pura conveniência adulta, não por assentar em qualquer evidência científica que assim é como os alunos aprendem melhor. É assim por legado do passado (industrialismo e cultura intelectual derivada da Academia de Platão e da época do Iluminismo). No entanto, estes rituais organizacionais e hábitos intelectuais em vigor não refletem adequa-damente a grande diversidade de talentos dos alunos.

Todos os estudantes têm habilidades naturais fantásticas e o segredo para as desenvolver é ir mais além do “academicismo” é mudar para sistemas que sejam personalizáveis para as habilidades reais de cada aluno. Até porque hoje em dia se pode personalizar tudo, os carros, os telemóveis, as apps, as roupas, o cabelo, a comida, a página do facebook, até a medicina tende a ir por esse caminho. É irónico que esta personalização ainda não seja feita na educação.


Voltemos ao início, as crianças aprendem a brincar, a explorar. A brincadeira livre tem um papel fundamental em várias fases da vida, em especial no desenvolvimento físico, emocional, social e intelectual das crianças e a sua importância é reconhecida em todas as culturas. Peter Gray, um investigador e psicólogo americano, afirma que de uma perspectiva de biologia evolucionária, brincar é a maneira natural de garantir que os jovens mamíferos, incluindo os seres humanos, adquiram as competências necessárias para se desenvolverem em adultos (funcionais e maduros).

É através da brincadeira livre que as crianças aprendem a fazer amigos, ultrapassam medos, resolvem os seus próprios problemas e de uma maneira geral assumem controlo sobre a sua própria vida. Um dos problemas que este investigador aponta é que ao longo das décadas os dias escolares se tornaram mais longos, há cada vez menos oportunidade de brincadeira livre ao longo do dia e os “trabalhos de casa” também invadiram as casas e a vida familiar. O recreio é muitas vezes considerado como um bem menor e de entretenimento entre as aulas realmente importantes.

A perda da brincadeira livre pode não matar o corpo físico, como mataria a falta de água, ar ou alimento, mas mata o espírito e atrasa o desenvolvimento mental. Nada do que façamos, nada do que compremos, nem “tempos de qualidade” ou atividades extracurriculares vão compensar a falta de liberdade que têm nessa brincadeira livre e sem orientação de adultos.

Um ponto de partida para a mudança de mentalidades nos educadores (de universidades, escolas básicas, secundárias e primárias até mesmo desenvolvimento profissional) seria incentivá-los a procurar o melhor jardim de infância da sua zona e passar por lá algum tempo a aprender como fazem esses educadores. Porque é muitas vezes nos jardins de infância que o aprender

natural é mais praticado e respeitado. Porque não aprender assim a vida toda?

Pessoalmente tenho a perfeita noção que houve muito conteúdo escolar que eu consegui fingir que sabia através dos testes, porque tinha facilidade em

memorizar para estes, mas na realidade não o aprendi. Quando quis aprender certo conteúdo, fui pesquisar sozinha, no meu tempo, com as minhas perguntas e aí sim a informação ficou. Como dizia Arthur C. Clarke, quando há interesse, a educação acontece.


Share by: